segunda-feira, 16 de outubro de 2017

207 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda da tragédia que deu o nome ao poço do chorão 
O poço do chorão situa-se no centro de Ferreira de Capelins, entre as antigas Aldeias de Capelins de Cima  e Capelins de Baixo, junto à estrada para Montejuntos! Dizem que este  poço é histórico porque, embora como charco, parece que, já existia há 2.000 anos, na época romana, formou-se naturalmente pelo encontro de vários cursos de água, vinda de diversas direções e encontrando-se nesse lugar! Quando os invernos eram rigorosos, esse charco tinha água pelo verão adiante, decerto com pequena nascente, permitindo dar de beber a pessoas e animais que ali passavam pela estrada um pouco abaixo, a única entre o rio Guadiana e Terena! Quanto à sua designação de "chorão" existem várias versões, sendo a mais comum: "que ali devia ter existido um chorão ou salgueiro", mas ninguém o viu, nem conseguiu ter confirmação dos seus antepassados da sua verdadeira existência! 
A lenda que conhecemos é muito diferente, o chorão não foi uma árvore, mas um homem, que ali muito chorou!
No ano de 1602 havia um lavrador em Terena que, tinha uma filha muito linda, chamada Madalena, que estava em idade casadoira e, perdeu-se de amores por um rapaz chamado António, seu vizinho e também filho de um lavrador cujas herdades encabeçavam existindo grandes desavenças entre eles, não se podiam ver, pelo que, seria impensável haver algum casamento entre os seus descendentes, mas quanto mais oposição existia por parte das famílias, mais eles se apaixonavam, até que, o pai da Madalena soube o que se passava e proibiu-a de se encontrar com o rapaz, mas como isso não acontecia, contratou uma criada muito severa, uma autentica carcereira para a guardar de dia e noite, as ordens eram para nunca a perder de vista! A Madalena deixou de falar e de ver o António e, nem conseguia mandar-lhe uma carta porque a criada não lhe tirava os olhos de cima e não deixava ninguém aproximar-se dela, estava prisioneira na sua própria casa! A situação tornou-se insuportável, a Madalena pouco comia e passava os dias a chorar! As irmãs e as criadas com muita pena dela davam voltas à cabeça sobre a forma de a ajudar, mas nada lhes ocorria, até que, uma das criadas mais velhas disse às meninas que se elas quisessem, tinha maneira de a ajudar, a bruxa de Terena era sua prima e fazia o que ela lhe pedisse! As meninas aceitaram a oferta da criada porque viam a irmã a definhar! A criada foi ter com a bruxa e depressa voltou, trouxe uma mesinha, era um pó para deitarem na comida da carcereira que a fazia dormir de dia e noite! A mulher dormia, dormia e a Madalena com a ajuda das irmãs encontrava-se com o António, mas ambos sabiam que os seus encontros tinham os dias contados, não podiam durar muito mais tempo, então, como não encontravam outra solução, decidiram fugir! Combinaram que desciam para sul até encontrar o rio Guadiana, depois era só irem descendo o mais próximo do rio, até ao Reino do Algarve e, aí começavam a sua vida! 
Depois de tudo preparado, numa noite muito escura, partiram, mas pouco depois da sua saída a carcereira acordou, foi ver se a menina continuava a dormia e como ela não estava na cama nem pela casa foi a correr acordar o lavrador que, em poucas horas tinha criados a procurá-los por todas as estradas em redor de Terena! O António e a Madalena aperceberam-se que estavam a ser procurados e, esconderam-se pelos matagais nas herdades da Boeira e Defesa de Ferreira! Como todos os caminhos estavam vigiados, também por pessoas a quem o lavrador tinha prometido grandes alvíssaras, durante o dia não podiam sair dos matos e como de noite era perigoso, pouco conseguiam avançar para sul! Já tinham passado quase dois meses e não havia nenhuma notícia deles, até que, quando um ganadeiro subia o atual ribeiro da aldeia de Ferreira com as ovelhas e sabendo da existência daquela fonte de água ia na sua direção e ouviu os seus cães a ladrar muito, pensou que seria algum lobo perdido, porque era tudo matos, ainda não existiam casas naquele espaço, foi averiguar ao que os cães ladravam tanto, mas ainda estava distante, apercebeu-se do mau cheiro e mudou de ideia, afinal era um animal morto e chamou os cães, mas eles não obedeceram! Como o seu destino era o charco ou fonte, continuou, mas o cheiro era insuportável e não teve outro remédio senão tapar o nariz com a fralda da camisa e aproximar-se dos cães, com o pau de guardar o rebanho afastou a vegetação e viu dentro do ribeiro a roupa muito esfarrapada de uma mulher e os cabelos compridos caídos sobre outra pessoa, da qual só aparecia parte da cabeça! Deu um salto para trás e afastou-se imediatamente, zangou-se com os cães que acabaram por lhe obedecer, chamou o ajuda e disse-lhe para não se aproximar  daquele lugar, mandou-lhe juntar o rebanho e seguir ribeiro abaixo para  a choça e disse-lhe que, tinha de ir a correr tratar de um assunto a Terena! 
O ganadeiro seguiu logo para Terena e foi recebido pelo capitão dos ordenanças, ao qual relatou o que tinha encontrado, disse-lhe que, pela roupa e pelos cabelos pareciam-lhe uma mulher e um homem! O capitão pensou logo na Madalena e no António, chamou dois ordenanças que os conheciam, passou-lhe a informação e disse-lhe que fossem com o ganadeiro ao dito lugar confirmar se eram os desaparecidos! Os ordenanças não conseguiram ter a certeza, mas recolheram as provas possíveis e, foram falar com as famílias que, por aqueles dados tinham a certeza de que eram mesmo eles!
Em toda a Vila de Terena, soube-se imediatamente e foi um grande desgosto para as famílias e para todas as pessoas, que odiaram e culparam o lavrador pela tragédia! 
As famílias tiveram de ir lá ao lugar reconhecê-los, porque não podiam existir dúvidas, o que só foi possível pela roupa e cabelo! Quando o lavrador se preparava para levar a Madalena para ser sepultada na Igreja Matriz de Terena, o capitão das ordenanças disse-lhe que não podia autorizar, porque já tinha feito uma reconstituição do que teria acontecido e, tudo indicava que eles tinham sido contagiados com peste em alguma fonte, depois, ele faleceu primeiro e, ela não o deixou, acabando por morrer ou com peste ou com fome junto dele, porque estava por cima e, pelo estado em que estavam, decerto havia mais de um mês, por isso, tinham de ser sepultados imediatamente naquele lugar e depois queimar tudo em volta! O lavrador não queria aceitar a ordem do capitão, mas a lei era muito rigorosa, todas as aldeias, vilas e cidades ardiam em peste desde 1600 e, ele teve de ceder, sendo ambos sepultados junto ao dito caminho! O lavrador sofreu grande desgosto, sentia-se culpado pela morte da filha e, durante quase vinte anos, enquanto viveu, foi diariamente onde a Madalena estava sepultada a pedir-lhe perdão e, enquanto lá estava, chorava, chorava, chorava, mas já era tarde, e foi assim que este lugar ficou a designar-se por chorão! 
Cerca de duzentos anos mais tarde, o charco (fonte) foi aprofundado e empedrado, passando a designar-se poço do chorão por se situar no lugar do chorão e, ao longo de séculos deu de beber a pessoas e animais das terras de Capelins e, a quem por ali passava.
Tanta gente que namoraram ali, sem saberem esta história de amor e, beberam a água do poço do chorão! 
O poço do chorão, ainda hoje, é propriedade da Junta de Freguesia de Capelins! 


Poço do chorão em Capelins




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