sábado, 28 de outubro de 2017

210 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do Chico franzino que enganou o Pároco de Capelins 
Na quinta feira, dia 10 de Setembro do ano de 1840, o Pároco de Santo António, padre Manoel de Sancto Ignácio Pereira, estava na casa paroquial fazendo a sua escrita quando bateram à porta, era um portador que, de caminho para Terena, trazia um pedido do morador numa das casas que existiam junto ao moinho do Roncão, para que o padre fosse dar a estrema unção ao seu pai que estava mesmo nas abaladas e para ir depressa ou então já não valia a pena ir lá, porque o homem estava mesmo pelas pontas! O padre ouviu o passageiro e exclamou: Mas como é que agora vou? O sacristão foi a Terena buscar umas coisas para a Igreja, levou a burra e não há aqui mais nenhuma! Pois! Não sei senhor padre, foi o que me pediram para lhe dizer! Respondeu o passageiro! Está bem! Eu vou já! Disse o padre! Chamou a mulher do sacristão contou-lhe o que se passava e disse-lhe que tinha de ir já, levava uma bucha e depois o sacristão quando voltasse de Terena que  fosse lá ter com a burra para o trazer de volta! Foi pelo Monte Novo, Pinheiro, Ramalha e antes de chegar à Zorra, onde havia água, já sentia uma sede insuportável, porque o padre lembrou-se da bucha mas esqueceu-se da água e o dia estava a ficar muito quente, então reparou numa choça perto do caminho, onde havia alguns animais, galinhas, porcos, cães e outros, pensou logo que, decerto estava por ali alguém e que tinha de ter água, dirigiu-se à choça e gritou: "está alguém?" Não demorou nada, saiu da choça um rapaz aparentando doze ou treze anos, muito franzino, esfregando os olhos e demonstrando mau humor! O padre cumprimentou-o, mas ele não respondeu!
Padre: Então, como te chamas?
Rapaz: Sou o Chico!
Padre: Oh Chico, não arranjas um cocho de água ao padre? Estou cheio de sede!
Chico: Não temos cocho! 
Padre: Está bem! Eu disse cocho, mas eu quero é água, seja num cocho, num quartilho, num púcaro, seja lá onde for!
Chico: Não temos água! 
Padre: Essa agora! Não têm aqui água para beber? Onde vão beber?
Chico: Bebemos aqui, temos uma panela cheia e é lá da fonte, mas a minha mãe disse-me para não lhe tocar, esta água é só para dar aos animais!
Padre: Eu tenho tanta sede, dá-me lá uma pinguinha que a tua mãe decerto não se zanga por matares a sede ao padre! 
Chico: Está bem! Espere aqui! 
O Chico entrou na choça, não demorou e voltou com uma tigela cheia de água para o padre, que bebeu com sofreguidão e no fim exclamou: "Boa água, fresquinha, muito saborosa, sabe mesmo a barro! Que sede eu tinha! 
Chico: Se gosta tanto dela, veja lá se quer mais uma tigela? 
Padre: Quero, quero, não posso negar, há tanto tempo que não bebia água tão boa! 
O Chico entrou novamente na choça e serviu mais uma tigela de água ao padre Manoel que a bebeu mais devagar, saboreando e repetindo: Boa água, tão saborosa! O Chico já estava cansado de ouvir o padre a repetir a mesma coisa e como para ele a água não sabia a nada, pensou em pregar uma partida ao padre Manoel! 
Chico: Oh senhor padre, mas a água sabe-lhe a alguma coisa? A mim não me sabe a nada?
Padre: Se sabe Chico, se sabe, não me lembro de beber água tão boa, tão saborosa! 
Chico: Tão saborosa? Estive a pensar e já sei do que é esse sabor!
Padre: É a água da fonte que é boa e depois é o gosto do barro onde a têm!
Chico: Não, não, senhor padre, esse sabor deve ser o do rato que se afogou esta noite na panela dessa água, por isso a minha mãe disse para não lhe tocar, ou então é sabor que  ficou nessa tigela onde a minha avó faz o xixi todas as noites!  
Quando o Chico acabou as últimas palavras já ia a correr à frente do padre pela chapada acima e o padre Manoel a gritar que lhe arrancava as orelhas, que era um malandro, malcriado, que isso não se fazia ao padre, mas lembrou-se da missão e desistiu de correr atrás do Chico, voltou e seguiu o seu caminho ao lado do Ribeiro do Carrão até ao seu destino! Assim que chegou, começou logo a contar o que o Chico lhe tinha feito e, só quando desabafou é que se dirigiu à cama do moribundo para fazer o trabalho que ali a levou, dar-lhe os Sacramentos para poder entrar no céu!
O Chico já não se aproximou da choça enquanto não viu passar o padre Manoel de volta à tardinha, com o sacristão, passou o resto do dia atrás dos outeiros encoberto com os chaparros a espreitar, não fosse ficar sem orelhas! O padre Manoel, durante uns dias contava a todos os paroquianos o desaforo do Chico e, rematava sempre: "um franzino daqueles", todos lhe davam razão e diziam: "Isso não se faz a um padre", mas nas suas costas riam, riam e o Chico, passou a ser um herói por ter tido coragem de pregar aquela partida ao padre! 
Eram assim, os divertimentos nesses tempos, nas terras de Capelins! 


Zorra - Capelins



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