quarta-feira, 6 de setembro de 2017

190 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins 

Montejuntos

História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do Frade eremita da pobre vida, que enganou o 

pastor da Defesa de Bobadela, em Capelins

A Congregação dos Eremitas de São Paulo da Serra D ‘ Ossa, era um movimento de cariz eremítico que surgiu no Alto Alentejo a partir da segunda metade do século XIV, embora enquadrado na forma de vida monástica, foi fortemente influenciado por práticas mendicantes.
Com uma rápida expansão a partir da Serra D’Ossa, local de onde partiram vários pobres para reformar alguns lugares ou para fundar novas casas, os homens da pobre vida em pouco mais de um século, entre 1366 e finais do século XV, instalaram, na diocese de Évora e sobretudo no Alto Alentejo, um total de treze eremitérios. Alguns instalaram-se nas imediações de aldeias, vilas e cidades, em locais ermos que designavam como “provenças”.
A partir da Serra D’ Ossa, para sul, avistam-se terras de Espanha, tendo como pano de fundo algumas serras, então, um frade eremita começou a pensar em ir até lá, porque parecia-lhe um bom lugar para fazer uma “provença”! Disse a alguns frades do Convento de São Paulo o que pretendia fazer e pediu-lhe informações sobre aquela área geográfica e eles disseram-lhe que achavam serem aquelas serras no Reino de Espanha e só com uma autorização desse reino ali se poderia instalar! O frade eremita, ou da pobre vida, não deixava de sonhar com aquelas terras do sul, que avistava lá tão longe e continuou a averiguar qual seria o melhor caminho para chegar lá, sendo informado que podia descer a serra D’ Ossa até à Ribeira do Lucefécit e depois seguia o seu leito até ao rio Guadiana, onde acabava o Reino de Portugal e começava o de Espanha!
O frade da pobre vida, depois de obter a devida autorização do Prior, numa madrugada do mês de Abril de 1721 pôs-se a caminho, ao fim de algumas horas conseguiu encontrar a Ribeira do Lucefécit e, a partir dali ficou orientado! Levou pouca comida, porque a mesma, era escassa no Convento, mas foi colhendo frutos bravos, bagas e ervas comestíveis, que ele bem conhecia! Ao chegar a Terena, procurou a vigararia e aí deram-lhe alguns mantimentos, principalmente pão e, também aí dormiu! De madrugada continuou a sua viagem, chegando à foz da Ribeira do Lucefécit perto do meio dia do dia seguinte ao da partida da serra D’ Ossa, porque foi muito devagar para observar bem a natureza da qual era amante! O rio Guadiana ainda levava muita água, porque chovia muito no mês de Abril, então parou nesse lugar e ficou a observar a fauna, flora, os cheiros da natureza e tudo o que o rodeava! Os aromas naturais emanados pelo rio Guadiana deixaram-no imediatamente apaixonado por aquele lugar e passadas poucas horas estava decidido a criar ali uma “provença” ou seja, um tipo de eremitério. Procurou um abrigo provisório junto a umas rochas onde encostou uns paus, colocou-lhe umas pedras grandes em cima para os fixar ao chão e fez uma armação em mato, com estevas, piorno e giestas, depressa arranjou um bom abrigo do frio, da chuva e do vento! Depois de ter esse lugar seguro, decidiu ir explorar as margens do rio Guadiana e verificou que havia por ali muita gente, moleiros e família, seareiros a levar o trigo aos moinhos, pescadores, ganadeiros e outras pessoas, o que não era bom, talvez assim não lhe faltasse comida, não que ele precisasse de muita, umas bagas, amoras, uvas bravas, uns figos e pouco mais, comia menos do que um passarinho, em parte alimentava-se através da meditação, mas era mau para um eremita que precisava de meditar sem ser incomodado! Como ainda não conhecia a região pensou em não desistir do lugar sem verificar se existia outro, para se instalar e foi descendo o rio Guadiana até chegar ao pequeno Ribeiro que separa a Defesa da Bobadela de Cima da Amadoreira, subiu um pouco esse Ribeiro e achou que era aí que queria ficar e já nem voltou lá acima à Foz da Ribeira, cortou alguns ramos de arbustos e fez outro abrigo num lugar muito bonito no lado da herdade da Amadoreira! Nesse dia, como estava cansado e ainda tinha umas côdeas de pão, já não saiu dali, sentou-se a observar tudo o que o rodeava e estava cada vez mais convencido ser aquele o sítio certo para se instalar! Disse algumas orações e fez-se noite, comeu pouca coisa e enrolou-se na manta em cima de junco, buinho, piorno e outros arbustos e dormiu que nem um anjo. Porém, não há bela sem senão, logo de madrugada foi acordado com o barulho de um rebanho de ovelhas, o balir, os chocalhos e os gritos e assobios do pastor! Ai valha-me Deus! Eu a pensar que estava no sítio certo, até me parecia o céu, agora uma coisa destas! Estava neste pensamento quando ouve uma voz acutilante, era o pastor:
Pastor: Então? O que é que vossemecê faz aqui?
Frade: Bom dia! Eu sou frade eremita do Convento da Serra D’ Ossa e estou a pensar em ficar por aqui algum tempo! Se não fizer aqui mal a ninguém!
Pastor: Cá pra mim, não me faz mal nenhum! Mas vem para um sítio destes fazer o quê?
Frade: Como sou eremita da pobre vida, venho para aqui meditar, entregar-me a Deus e à natureza, neste lugar tão aprazível!
Pastor: Isso é o quê? Nunca vi essas coisas! Meditar?
Frade: É pensar! Refletir! Falar com Deus e com a natureza através da minha mente e do meu corpo!
Pastor: Eu não percebo nada disso, mesmo nada! Percebo é de ovelhas e não é pouco! Eu nem sei se não sou filho de uma ovelha! Mas se fala com Deus, está tudo dito! Passe bem, que eu tenho mais que fazer!
O pastor e o rebanho afastaram-se e ficaram apenas os rumores da natureza, o ambiente propício à meditação, que imediatamente fez o frade mudar a ideia de abalar dali! Desceu o Ribeiro até ao rio Guadiana, lavou-se, bebeu água e foi procurar alguma coisa comestível, fornecida pela natureza! Por ali andou, até à hora da meditação, que foi fazer perto do lugar onde tinha os seus poucos haveres, pouco mais do que uma manta! Estava tudo a correr bem até ao momento em que sentiu estar a ser observado, era novamente o pastor que estava atrás de uma moita de estevas com os olhos arregalados para o que estava vendo, que não era mais do que o frade em meditação, uma coisa que ele nunca tinha visto e achava muito estranho, por isso, não demorou a aproximar-se para fazer perguntas ao frade:
Pastor: Olhe lá! Não me diga que estava a falar com Deus? Ou estava a dormir a sesta sentado?
Frade: Estava a entregar-me a Deus e à natureza! Mas se não se importar eu preciso de continuar, de silêncio e de estar sozinho, como lhe disse sou um eremita!
Pastor: Já percebi que não me quer aqui! Está bem, vou-me já embora a ver das ovelhas! Só gostava de saber que conversa é a sua com Deus! Eu estive à coca e não ouvi nada! Como é que falam? Vocemecê não diz nada!
Frade: Não é propriamente falar, é através da meditação! É preciso silêncio para esvaziar a mente e o corpo!
Pastor: Ai valha-me Deus! O que me havia de aparecer aqui! Passe bem e por mim pode continuar a falar com Deus ou com quem vossemecê quiser!
O frade eremita passava os dias em meditação, mas o pastor continuava a observá-lo à distância, era o seu divertimento!
O pastor quando chegava à noitinha recolhia à sua choça na Defesa de Bobadela de Cima, onde estavam a mulher e os filhos e levava sempre novidades, já estavam esperando por ele para saberem se tinha ouvido o que disse Deus ao eremita, mas as novidades não eram muitas, sempre o mesmo! O homem dá-me dó, passa horas e horas sem comer nem beber a falar com Deus, devem ter muito que falar um com o outro! Contava o pastor à mulher e aos filhos!
O verão foi passando, mas a situação não se alterava, o pastor já ligava mais ao que o frade eremita fazia do que às ovelhas, tudo era admiração, contava tudo à família, a qual, depois se encarregava de espalhar pelas terras de Capelins! Como estava a acabar o verão e o abrigo do frade era muito fraco para suportar o frio e chuvas do inverno que se aproximava, o frade procurou um lugar agradável para se instalar melhor, quando o encontrou, sentou-se na posição da meditação, na margem esquerda do Ribeiro, onde previu que a água não chegaria e fingiu que estava a meditar, não demorou nada já estava o pastor deitado nas rochas por cima dele, a tentar ouvir a conversa! O pastor pensou: Hoje é que não te escapas! Daqui vou ouvir a tua conversa toda com Deus! O frade estava a vê-lo por cima dele, fingiu que falava com Deus e levantou a voz: “O tesouro está por cima de mim e será recolhido por quem salsa semear, com água de maná a regar, quando ela florescer, o tesouro pode recolher”! O pastor nem quis ouvir mais nada, mandou os cães virar as ovelhas e foi mais cedo para a choça! Entrou espavorido e disse à mulher: Maria! Estamos quase ricos! Hoje ouvi a conversa do frade eremita com Deus, já sei onde está um tesouro! Eu já tinha ouvido isso a muita gente, só faltava saber o sítio! Agora já sei!
Ti Maria: Espera lá Manoel, então se está lá um tesouro e esse eremita sabe onde ele está, porque motivo é para ti e não o leva ele?
Pastor: Oh mulher, quantas vezes já te disse que o homem é da “Congregação de Jesus da Pobre Vida”, ele não pode ter nada! Mas Deus disse-lhe que estava ali um tesouro, eu ouvi bem! O que queres que eu te diga mais?
Ti Maria: Então se o tesouro lá está, porque não o trouxeste já? Estou mesmo a ver que quando o fores a buscar já lá não está, já outro o levou! És sempre o mesmo parvo!
Pastor: Eh lá! Parvo é que eu não sou! É que para trazer o tesouro, ainda tenho de fazer algumas coisas, ainda temos de dar umas voltas!
Ti Maria: Eu vi logo! A nossa sorte é sempre assim! Então o que temos de fazer para o trazer para a choça?
Pastor: Eu já te conto mulher! Há aí uma coisa que eu não sei como a vamos arranjar!
O pastor contou à Ti Maria o que tinham de fazer, afinal era quase tudo muito fácil, o maior problema era encontrar a água de maná! Mas que água será essa? Será da Botica? Deve ser muito cara! Onde vamos arranjar essa água para regar a salsa? Interrogavam-se ambos! A Ti Maria prontificou-se a ir até onde fosse preciso a procurar a água de maná! Então faz lá isso mulher, porque eu não posso deixar as ovelhas! A ti Maria no dia seguinte saiu da choça e foi procurar a água de maná! Levantou-se cedo com ideia de ir a Terena, mas como tinha duas irmãs que moravam na Vila de Ferreira, às Neves, pensou em falar com elas para saber se queriam ir a Terena ou alguma coisa de lá! As irmãs perguntaram-lhe o que ia lá fazer?
Ti Maria: Vou ver se encontro lá, água de maná, para o meu marido tratar as ovelhas!
Irmã: Mas se é só isso, não precisas de ir a Tertena! Trazes a água e o padre benze-a aqui!
Ti Maria: Oh mana, mas eu não sei o que é água de maná, para trazer ao padre!
Irmã: A água só e de maná depois do padre a benzer, porque até pode ser ali da Ribeira do Lucefécit!
Ti Maria: Estás a falar a sério mana? Ou estás a brincar comigo?
Irmã: Oh mana, então eu ia lá brincar com uma coisa dessas! Vai buscar a água que precisas para tratarem as ovelhas que eu depois vou contigo a falar aqui com o padre!
Ti Maria: Então, assim já não vou a Terena!
Irmã: Se era só por isso, não vais lá fazer nada!
A Ti Maria voltou dali para a choça e foi contar ao marido, o que era preciso fazer para terem a água de maná e ele ficou muito contente por ser tão fácil, era como se já a tivesse, ela no dia seguinte levou dois cântaros de lata cheios de água, na burra, e o Padre da Igreja de Nossa Senhora das Neves depois dela lhe explicar que era para uma mesinha e para salpicar as ovelhas depois de umas orações, porque achavam que as coisas não andavam muito bem e assim ficavam mais descansados e mais isto e mais aquilo, convenceu o padre, mas em troca deu-lhe uma dúzia de queijos. O padre benzeu a água e a Ti Maria voltou à choça muito contente!
O pastor ainda nesse dia, foi cavar bem a terra, levou uma saca de estrume das ovelhas e semeou logo a salsa, a mulher foi levar-lhe o jantar (almoço), umas sopas de grãos, e levou alguma água de maná para a regar, tapou-a com uns ramos de lenha e ficou tudo pronto e em condições de nascer! O pastor todos os dias a regava e, ao fim de quinze dias já estava a nascer! Como a terra e estrume eram bons em pouco mais de um mês a salsa já estava a florescer! O pastor ia contando à mulher o estado em que a salsa estava, até que concordaram que já podia procurar o tesouro! Na madrugada do dia seguinte levou uma picareta e uma pá, calculou o lugar por cima da salsa onde pensou estar o tesouro e começou a cavar, mas grande parte do terreno tinha rocha que exigia grande esforço, o pastor cavou três dias e grande parte das mesmas noites sem aparecer nada! A mulher que estava permanentemente a par da situação disse-lhe que ele devia estar a procurar no sítio errado, porque decerto era para o lado de cima da salsa! Depois de trocarem opiniões, o pastor mudou de lugar e começou a cavar no lado de cima, a norte da salsa e, já tinha grande buraco quando o frade que, desde o início ia observando o trabalho, com pena do pastor andar a trabalhar tanto e, porque já estava feita a gruta que precisava, foi ter com ele:
Frade: Bom dia pastor! Procura aí alguma coisa?
Pastor: Pois procuro! Então pensa que eu não ouvi Deus a dizer-lhe que estava aqui um tesouro?
Frade: Olhe que Deus não me disse nada disso! Como é que vossemecê pode ter ouvido?
Pastor: Há menos de oito dias, eu ouvi tudo! Deus a dizer-lhe "quem aqui semeasse salsa e a regasse com água de maná, quando ela estivesse como essa, podia levar um tesouro que estava por cima dela"! Foi ou não foi?
Frade: Não foi! Não! Acredito que tenha ouvido essas palavras na minha meditação, mas eu estava a ler entre linhas!
Pastor: Entre linhas? Eu não vi aqui nenhuma linha! Vocemecê está é a querer disfarçar! Mas olhe que a mim não me engana! O tesouro é meu e acabou-se!
Frade: Pode continuar cavar, se não acredita em mim, mas olhe que tudo não passa de um mal entendido! Já lhe expliquei o que foi, agora é consigo!
Pastor: Está bem! Deixa! Vocemecê é que pensa que me engana! Deve enganar, deve!
O frade afastou-se e o pastor continuou a cavar mais alguns dias, até que no lugar onde estava a cavar começou a jorra água em abundância, saindo dali uma fonte, que obrigou o pastor a abandonar o lugar e a convencer-se que o frade eremita lhe tinha falado a verdade, era mesmo um mal entendido! Foi para a choça muito triste, mais uma vez não tinha tido sorte na vida e ainda por cima trabalhou tanto! Nunca tinha trabalhado tanto na sua vida! Ainda disse à mulher: O frade eremita enganou-me, mas logo a seguir corrigiu: Não! Não enganou! Eu é que percebi mal, ele até me tentou ajudar! Eu é que fui teimoso! A Ti Maria consolou-o: Deixa marido, não estávamos guardados para isso, o que é preciso é termos saúde, eu já sabia que a nossa sorte é sermos pobres até morrer! O pastor ainda exclamou: Mas que há por aí um tesouro, lá isso há!
Chegou o inverno, o pastor mudou a choça e as ovelhas para outro lugar afastado dali e o silêncio instalou-se naquele lugar! O frade, que de verdade enganou o pastor, mudou-se para a gruta que ele abriu na barreira da margem do Ribeiro, foi só tapar a frente com uns arbustos, piorno, junco e buinho e ficou muito bem instalado, abrigado do frio e da chuva, com um lugar muito bom para a sua meditação! Por ali ficou alguns anos, depois desapareceu! Ainda hoje lá está, submersa pelas águas do Grande Lago de Alqueva, ao fundo desse Ribeiro, a dita gruta do frade eremita da pobre vida e a Fonte do Frade, ou da Figueira, por ter uma figueira ao lado!

Fim



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