quarta-feira, 19 de julho de 2017

155 - Terras de Capelins 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
O baile na herdade do Terraço
Aqui, ao lado deste cruzeiro, situado no Terraço, realizou-se um baile internacional + - no ano de 1940.
Quando escrevo um baile internacional foi porque as protagonistas do inesperado baile foram portuguesas e espanholas com espetadores (homens) portugueses, que só tiveram direito a assistir e admirar tão deslumbrante espetáculo no meio do nada.
Decorria o ano de 1940 e o rescaldo da guerra civil de Espanha, de 1936-1939, sentindo-se, e de que maneira, a devastação, em todos os sentidos daquela fatídica guerra. Em Ferreira de Capelins, estava tudo aparentemente calmo, embora, ainda por aqui se sentisse o sofrimento dos nosso vizinhos, principalmente os da vizinha Vila de Cheles. 


Num lindo dia de sol, daqueles que apetece andar pelo campo, veio a vizinha Domingas Carraço, filha da Ti Catarina Veleza, convidar a minha mãe e a minha tia Jacinta para irem ao feixe, (ir ao feixe, era ir às Areias, ou outro lugar de azinhal, fazer um feixe de lenha de azinho e trazê-la à cabeça para casa), a minha tia Jacinta não gostou muito da ideia, até porque o meu avô Xico Alvanéo, não autorizava a ida ao feixe, mas a minha mãe insistiu e lá foram as três a caminho das Areias apanhar o feixe de lenha. Quando vinham de volta para Ferreira de Capelins, no local onde está este cruzeiro, ao lado do pocinho do Terraço, (era um pocinho pequeno, que nem estava empedrado e foi entupido), apareceram três espanholas que vinham dos lados de Santiago Maior ou Cabeça de Carneiro e se dirigiam para Cheles, já um ano depois do fim da guerra, mas algumas pessoas continuavam a vir a Portugal a pedir e a comprar coisas que não existiam em Espanha. Então as espanholas meteram-se com elas, perguntaram como se chamavam, o que andavam a fazer, apresentaram-se, sendo a mãe e duas filhas moças, não pediram nada, nem elas tinham nada para lhe dar. Pousaram os feixes de lenha e continuaram a conversa sobre as suas tristes vidas, porque todas as pessoas perderam familiares naquela guerra. A minha mãe, a minha tia Jacinta e a Ti Domingas Carraço, não tinham nada para lhe dar, mas foram elas que lhe deram e tanto que, ainda hoje dura nas suas memórias. Sabem o que foi? Não foi tristeza, foi alegria! Dividiram-se em 3 pares e armaram um baile acompanhado pelo cante das espanholas que durou algumas horas, ao ponto dos trabalhadores que ali andavam a lavrar, o ti José António Grilo e outros, pararam a lavoura para assistir à festa tão bela naquele lugar. A seguir, sabem o que a espanholas fizeram? Pegaram nos feixes de lenha à cabeça e levaram-nos até à Portela, perto do Monte Novo de Capelins, mas não era esse o seu caminho. Ali, pousaram os feixes de lenha, deram-lhe uns beijinhos e voltaram na direção de Montejuntos - Cheles, tudo isto, em troca de coisa nenhuma. 

Nunca mais as viram, foram anos mais tarde arranjar o cabelo (fazer permanente), a Cheles, mas não as encontraram.


Cruzeiro do Terraço


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