terça-feira, 18 de julho de 2017

153 - Terras de Capelins 

História, lendas, contos e mitos das terras de Capelins 
A lenda do Cara linda amor da burra e o milagre de Nossa Senhora das Neves  
Conforme podemos confirmar através dos registos paroquiais de Santo António, desde 1635, estão registados muitos óbitos de parturientes, deixando orfãos algumas crianças que na maioria dos casos, por tradição, ficavam aos cuidados das avós. A nossa lenda retrata uma dessas situações verificada no mês de Junho de 1790, nas terras de Capelins, sendo atribuído um milagre de Nossa Senhora das Neves, a favor da criança em questão, que lhe valeu a sua sobrevivência. 
A Ti Maria da Encarnação, que morava no Monte do Escrivão, ao dar à luz o seu primeiro filho, ficou muito doente e, oito dias depois, acabou por falecer. Ainda amamentou o filho algumas vezes, mas era tarefa impossível devido ao seu estado o que ainda a deixava mais debilitada e, como geralmente se fazia, foi necessário procurar a boa vontade de uma mulher que tivesse uma criança recém nascida, ou que ainda estivesse a amamentar para, pelo menos, durante alguns meses, ajudar a amamentar a criança. Ainda antes do falecimento da mãe, já o pequeno Francisco andava em viagem três vezes por dia, com a avó materna, na burra, entre o Monte do Escrivão e Capelins de Baixo e era insuficiente, o Francisco chorava toda a noite com fome. A sua avó, Ti Antónia do Rosário, rezava e fazia promessas a Nossa Senhora das Neves, pedindo que aparecesse pelo Escrivão uma mulher que pudesse amamentar o Francisco, porque, não só era muito doloroso andar o dia todo a caminho de Capelins de Baixo, como o leite da ama não era abundante para duas crianças, tendo algumas vezes de recorrer a outras mulheres nas redondezas. A Ti Maria do Rosário não perdia a esperança e continuava a implorar a ajuda de Nossa Senhora das Neves. Um dia, depois de voltar de Capelins de Baixo, pediu a uma vizinha para ficar com o Francisco para ir lavar os coeiros ao pego das vacas na Ribeira do Lucefécit, levou a burra que tinha um borcalho (burrito) ficando este encerrado no cabanão e, enquanto estava lavando os coeiros do Francisco não parava de rezar, quando estava acabando a lavagem os seus olhos foram guiados para a burra e viu o leite a correr em abundância para o chão sem ser aproveitado. A Ti Antónia percebeu que era um milagre de Nossa Senhora das Neves, foi a correr para o Monte do Escrivão, entrou em casa, pegou numa tigela de barro e tirou mais de meio litro de leite à burra, encerrou-a no cabanão e foi cozer o leite, à noitinha quando o Francisco começou a chorar com fome, pegou-o ao colo e começou a dar-lhe o leite da burra, morno, gota a gota, numa colher, mas o Francisco, apesar de ter fome, não conseguia engolir e foi uma tarefa muito difícil que durou quase toda a noite. No dia seguinte, logo cedo, teve de levar o Francisco a amamentar a Capelins de Baixo, depois de dormir, acordou com fome e, ela continuou a dar-lhe leite da burra na colher, fazendo esse treino durante alguns dias, até que com muita paciência e insistência o Francisco começou a beber umas pinguinhas do leite da burra o que fez reduzir as viagens a Capelins de Baixo. Ao fim de alguns meses, o Francisco começou a comer umas pitadinhas de açorda de alho e muito leite de burra, dispensando o leite das amas, porque ele gostava mais de leite de burra e após a da avó deixar de ter leite, davam-lhe das burras dos ganadeiros que por ali andavam. Alguns anos depois, quando prendiam as burras à porta da taberna do Monte do Escrivão, o Francisco, já crescido, corria a mamar diretamente nas burras, ao desafio com os borcalhos. O rapaz cresceu saudável, bem constituído, muito engraçado, mas nunca mais se livrou da alcunha: "O cara linda amor da burra", mas não se importava, porque sabia que tinha sido o leite de burra que provavelmente lhe tinha salvado a vida. 
A este facto, ficou ligado mais um milagre de Nossa Senhora das Neves! 



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