terça-feira, 23 de maio de 2017

131 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do lavrador da orelha rachada
Parte 3 
A lei e a ordem nas terras de Capelins eram da responsabilidade da Casa do Infantado, mas em caso de intervenção militar era usado o Regimento da Casa Bragança. A este caso acudiu a patrulha de ordenanças de Terena, comandada por um tenente com fama de muito severo e esperto. Ao chegar ao Monte do lavrador, falou com a lavradora e inteirou-se do que se tinha passado, interrogou os criados que tinham acompanhado o patrão, e todas as provas indicavam que o atacante tinha sido o sapateiro do Monte do Salgueiro, o tenente ainda tentou falar com o lavrador, mas o homem não acertava a conversa. Assim, dirigiu-se ao lugar do crime, acompanhado dos criados, que lhe explicaram como tinham sido atacados, mas nada dava certo, cada um contava à sua maneira, o tenente mediu algumas pegadas, fixou sinais e dali foi a casa do sapateiro. Depois de se apresentar e dizer o que ia fazer disse ao sapateiro que queria falar com ele em privado e foram para um "cabanão" ao lado da casa, fez-lhe muitas perguntas sobre o seu anterior desentendimento com o lavrador e se tinha saído de casa com a burra na ultima madrugada! O sapateiro foi sempre muito seguro nas respostas e respondeu que não tinha posto o pé fora de casa, nem ele, nem a sua burra, neste caso as patas. O tenente andou de gatas a averiguar se existiam pegadas frescas da burra à saída da cabana, como nesses tempos o piso era térreo ficavam sempre pegadas, mas não encontrou nada, interrogou os vizinhos um a um e todos garantiram que o sapateiro não podia ter saído de casa, porque, pouco tinham dormido e ouvido até as patadas dos cães de madrugada, não era possível não ouvirem os cascos da burra e o tenente não conseguiu apurar nada, pediu ao sapateiro para descalçar as botas e mediu minuciosamente o tamanho e não encontrou as medidas que tinha tirado nas pegadas no ribeiro das cobras (quebra), porque o sapateiro calçou as botas de um cliente, dois números acima das dele, mas com uma palmilha ficavam-lhe boas. Quanto às pegadas da burra no lugar do crime, não chegou a nenhuma conclusão porque havia lá muitas do mesmo tamanho. O tenente não conseguiu incriminar o sapateiro do Salgueiro e, embora as averiguações continuassem mais algum tempo, o processo acabou por ficar esquecido. Os familiares não concretizaram nenhuma vingança contra o sapateiro, porque, como o lavrador tinha muitos inimigos, devido aos ataques que fazia às mulheres, ficava a dúvida se não teria sido outro o vingador.
O lavrador, fez curativos mais de três meses, a sua orelha direita sarou, mas ficou desligada, rachada, segura por poucos centímetros, por isso o lavrador começou a ser conhecido nas terras de Capelins e arredores pelo orelha rachada. Nunca mais ficou bom da cabeça, saía do Monte pelas estradas sem destino, diziam que estava parvinho e nunca mais foi a mesma pessoa. Doze anos depois, cerca de 1800, faleceu de doença não identificada. O Monte que já era conhecido "do orelha rachada" mais tarde, passou a ser o Monte da rachada, mas conforme podemos constatar nos Assentos Paroquiais de Santo António, como o Monte já era da lavradora, ficava mal, "Monte da Rachada" então, os Párocos registaram, nos Assentos de batismos, casamentos e óbitos, "Monte da Rexiada", que veio ser o nosso conhecido, "Monte da Recheada"!
O sapateiro ficou muitos anos calado, só a mulher sabia, mas no fim da sua vida, já livre de perigo, contou aos familiares e a alguns amigos como tudo se tinha passado, naquela fatídica madrugada de segunda-feira no ribeiro das cobras! 
A Joana casou com um dos aprendizes de sapateiro, depois mestre, ficaram a residir no Monte do Salgueiro, tiveram cinco filhos e uma vida muito feliz, ainda hoje, por aqui há descendentes!

Salgueiro 


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