segunda-feira, 22 de maio de 2017

130 - Terras de Capelins: Faleiros - Ferreira de Capelins - Montejuntos 
História, lendas e tradições das terras de Capelins
A lenda do lavrador da orelha rachada
Parte 2 
O sapateiro do Monte do Salgueiro, começou imediatamente a pensar como poderia evitar a sua morte marcada para a madrugada de segunda-feira. Durante a noite, não fechou os olhos, mas foi construindo o plano que ia levar em frente, contou à mulher tudo o que estava planeado e sossegou-a, garantindo-lhe que nada lhe aconteceria. No domingo à noite apanhou um molho de buinho (palha para o assento de cadeiras e para fazer esteiras) e dividiu-o em dois, atou cada um com cordéis e depois os dois molhos ao meio, desenhando uma cintura humana, fez uma cruz com dois paus, meteu-a por dentro do buinho, fazendo um boneco, que vestiu com a sua roupa, colocou-lhe um chapéu e na escuridão da noite parecia uma pessoa! Levantou-se de madrugada, albardou a burra, pôs-lhe um alforge, (duas bolsas ligadas), uma de cada lado da albarda e meteu as pernas do boneco dentro do alforge, sentado na burra, cortou uma saca de serapilheira em quatro partes para embrulhar os cascos da burra para não deixar marcas à saída da cabana e para ninguém o ouvir sair, (e foi a sua sorte), depois de se afastar de casa retirou os bocados da saca, das patas da burra e escondeu-as ao lado da estrada, para usar quando voltasse. Eram quase quatro horas da madrugada, e pôs-se supostamente a caminho de Vila Viçosa, quando estava a chegar ao ribeiro do quebra, onde ele tinha a certeza que o lavrador o esperava, mandou a burra andar e ficou um pouco para trás, escondeu-se entre os arbustos e quando a burra ia passando o ribeiro, um dos criados saltou-lhe à frente, segurou-a e obrigou-a a parar, ao mesmo tempo o lavrador já preparado descarregou o pau ferrado (com a ponta em ferro), no boneco que estava em cima da burra, o outro criado (o da encomenda das botas novas), ainda gritou ao patrão que aquele não era o sapateiro, mas já era tarde, o buinho cedeu e o pau foi cair na cabeça do criado que se tinha aproximado muito da burra, porque percebeu que a silhueta não era a do sapateiro, e caiu de costas sem sentidos. O lavrador, apesar da escuridão, sentiu logo que alguma coisa não estava a correr bem, naquele momento ouviu uns passos apressados atrás dele, virou-se, mas não teve tempo de se defender da pazada que vinha a caminho da sua cabeça e ficou prostrado e inerte no chão, soube-se mais tarde que a orelha direita ficou cortada ao meio e presa por poucas linhas, o criado que estava a segurar a burra, viu-se sozinho e fugiu a correr o mais que podia, só parou quando já não conseguia correr mais, então parou para pensar no que tinha acontecido e no que devia fazer, sentou-se no chão e depois de acalmar um pouco voltou para trás com muita cautela para tentar saber se os companheiros estariam mortos ou vivos. Já perto do lugar do acontecimento viu o outro criado sentado, agarrado à cabeça, começou a chamá-lo e, como não via nenhum vulto por perto, foi-se aproximando, falaram pouco e decidiram que tinham de levar o lavrador para casa, estivesse, ou não morto. Carregaram o lavrador até onde tinham as montadas, atravessaram-no em cima de uma das burras e seguiram para o Monte, chamaram a lavradora e contaram-lhe que o patrão tinha sido atacado por desconhecidos e estava morto. Houve grande alarido no Monte, mas deitaram-no na cama e concluíram que não estava morto, mas em coma, e as criadas começaram logo a tratá-lo, com paninhos, água quente e outras mesinhas, mas o homem estava numa lástima e a lavradora mandou chamar curandeiros e a patrulha de ordenanças de Terena (guarda do reino) para apanhar os malfeitores! 
O sapateiro, voltou dali para o Salgueiro, meteu a burra na cabana sem barulho, arrumou tudo e foi deitar-se, como se nada tivesse acontecido, quando os aprendizes chegaram e alguns clientes, apareceu à porta em ceroulas e esfregando os olhos, fingindo muito sono, e todos pensaram que estava a levantar-se naquele momento! 
 Continua...

Salgueiro 


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