quarta-feira, 12 de abril de 2017

258 - Terras de Capelins 
História, lendas e tradições das terras de Capelins 
A lenda do lobo amestrado e o milagre de Nossa Senhora das Neves

A partir de 1850 verificou-se a afluência de muitas famílias às terras de Capelins, com maior concentração na parte sul, no Monte do Salgueiro, Montes Juntos e nas herdades limítrofes, sendo a maioria dos novos povoadores, guardadores de gado, designados por ganadeiros. A maioria desses ganadeiros vieram na transumância, por aqui casaram e ficaram, porque nessa época, todos os lavradores tinham grandes rebanhos de ovelhas e outro gado. A maioria dos ganadeiros, eram naturais do Distrito da Guarda, da Serra da Estrela e, quase todos, fizeram a sua casa nos referidos locais, porque era necessária para quando as mulheres tinham crianças aqui permanecerem durante algum tempo e, como tinham um filho/a por ano, pouco tempo estavam nas choças. 
O caso que vamos descrever passou-se com o Ti João Gomes, ganadeiro na herdade da Defesa de Bobadela, que se situava entre a herdade da Amadoreira e a herdade do Azinhal Redondo de Baixo. Esta herdade era muito boa, tinha terras férteis e muita água, uma vez que englobava grande extensão do rio Guadiana, mas existiam por lá muitos lobos, obrigando o Ti João a redobrar o trabalho.
Um dia o Ti João guardava as ovelhas perto da Cinza, ouviu os seus dois cães a ladrar, um rafeiro alentejano e um serra da Estrela pêlo curto, foi a correr a ver o que se passava e encontrou um lobito, muito pequenino, muito lindo, que parecia esfaimado e a tremer de frio. O Ti João não resistiu a apanhá-lo para dentro do bornal, foi procurar uma das duas cabras que trazia no rebanho e começou a ordenhar para a sua mão, fazendo uma cavidade que encheu de leite, e com muito carinho meteu a boca do lobito dentro do leite, foi muito difícil, e teve muita paciência, mas quando o lobito começou a provar o leite tudo se tornou mais fácil e no final do dia já conseguia beber umas gotas de leite. Quando chegou com as ovelhas à choça, estava lá a mulher, a Ti Margarida de Jesus, que ficou muito admirada por o marido arranjar mais um cão! O Ti João explicou-lhe que não era um cão, era um lobo! Ai valha-me Deus homem, então tu trazes um lobo para casa! E se aparece aí o pai e a mãe a procurá-lo! Vê bem o que vais fazer, deixa ver se esse lobo não vai ser a nossa desgraça! Disse a Ti Margarida! Cala-te mulher! Vamos criar o lobo e amançá-lo, vais ver o cão que vamos arranjar! Disse o Ti João! A seguir, foi ordenhar as cabras e pediu uma tigela velha à mulher para dar leite ao lobito, que começou a beber o leite das cabras, todos os dias, e a crescer sem apresentar braveza, tudo estava a correr como o Ti João tinha planeado. 
Cerca de um ano depois, o lobito começou a afastar-se da choça e do pastor, cada vez dava passeios mais largos a farejar os sítios onde tinham passado os da sua raça, mas voltava sempre à choça, até que uma noite não regressou e ficaram todos muito tristes, chamaram, chamaram e nada, pensaram que os outros lobos o tinham matado. No dia seguinte, o Ti João foi a um lugar mais alto e deu um assobio dobrado, não demorou muito apareceu o seu lobito amestrado, deu-lhe leite na sua tigela exclusiva, ele bebeu o leite, mas horas depois tornou a desaparecer, continuando esta situação a verificar-se por mais de um ano, o Ti João dava o assobio dobrado e o lobito voltava, bebia o leite e depois desaparecia. O lobo, com mais de dois anos de idade, estava muito grande e bonito, o pelo brilhante e já estava integrado na alcateia que não andava longe dali, mas nunca atacou o rebanho do Ti João, decerto, devido ao seu lobo amestrado, que desviava dali os outros lobos. 
Decorria o mês de Abril de 1862 e o Ti João estava a guardar as ovelhas muito perto da Amadoreira e apareceu um seu compadre, o Ti Francisco Valente, ganadeiro da Amadoreira e, também natural da mesma aldeia, da Póvoa Nova, Seia, ao ver o Ti João, veio ter com ele, cumprimentaram-se e a conversa não podia ser outra, senão sobre o gado que guardavam e o Ti Francisco perguntou ao compadre se os lobos não lhe andavam a dar muito trabalho? Porque ele não dava conta deles! O Ti João, disse-lhe que não! E contou-lhe que havia mais de dois anos, que não tinha problemas com os lobos, desde que tinha um lobo amestrado, nunca mais a alcateia se aproximou do rebanho! Um lobo amestrado? Oh compadre, está a brincar comigo, não? Disse o Ti Francisco! Não estou, não compadre e posso mostrar-lhe que estou a falar verdade, amanhã por esta hora vamos ali ao Ribeiro da Amadoreira, eu dou um assobio dobrado e vem ter comigo um lobo como o compadre nunca viu! Disse o Ti João! Com muitas dúvidas, o Ti Francisco aceitou a proposta do Ti João, no dia seguinte ia ver o lobo amestrado! 
No dia seguinte, conforme estava combinado, à tardinha lá estava o compadre do Ti João junto ao Ribeiro da Amadoreira, muito perto do rio Guadiana. O Ti João foi ter com ele, cumprimentaram-se e explicou-lhe como iam fazer, o compadre ficava num lugar mais alto atrás de umas rochas, para ver e não perturbar o lobo, depois de tudo certo o Ti João desceu uns sessenta metros, preparou a respiração e deu um assobio dobrado, ficaram à espera e em poucos minutos apareceu lá ao fundo um lindo lobo, o Ti João chamou-o: "vem cá lobito, vem cá". O lobo aproximou-se, mas parou as uns vinte ou trinta metros, demonstrando um comportamento anormal, farejou, farejou e repentinamente transformou-se numa autentica fera, eriçou o pêlo do dorso e lançou-se em voo sobre o Ti João, arreganhando os dentes que pareciam facas afiadas na direção da sua garganta. O Ti João ficou muito assustado, mas não virou costas, levantou o pau, que era ferrado, (com um ferro embutido à ponta) e gritou: "Socorro Nossa Senhora das Neves", o pau que ele tinha levantado disparou com tal intensidade contra a cabeça do lobo, que lhe caiu em cima dos pés, ficando inerte. O compadre, pastor da Amadoreira, assistiu a tudo, mas nada podia fazer, veio ter com o Ti João, mas nem conseguia falar, tremia todo dentro das botas e os poucos dentes que tinha batiam uns contra os outros que parecia estar a tocar castanholas, quando acalmou, disse: "Foi por pouco compadre, eu já ai vinha ajudá-lo, mas estava lá tão longe! Está morto, não está?" Agora está, depois venho enterrá-lo, mas como é que isto aconteceu! Ele conhecia-me tão bem! Disse o Ti João! O lobo conhecia o Ti João, mas noutras circunstâncias, faltava ali um objeto essencial ao lobo, era a tijela onde bebia o leite e comia, que substituiu a mãe que nunca conheceu, para ele, era um símbolo de respeito carinho e de amor, estando a tijela associada ao assobio dobrado do Ti João. Daí a pouco, já mais calmos, os pastores despediram-se, recolheram as ovelhas e foram para as respetivas choças. O Ti João assim que chegou, contou à mulher o que se tinha passado, ela chorou muito e recordou o que lhe tinha dito no dia em que ele levou o lobito para a choça: "Vamos ver se esse lobo não vai ser a nossa desgraça"! Não foi, mas esteve perto! O marido disse-lhe que ainda ia a correr enterrar o lobo, pegou numa enxada e dirigiu-se ao lugar onde o tinha deixado, supostamente morto, mas quando lá chegou, não existia qualquer sinal do lobo, procurou tudo em redor e nada, acabou por voltar à choça. A conversa com a Ti Margarida continuou e ele afirmou que tinha sido um milagre de Nossa Senhora das Neves que lhe salvou a vida! E agora o que fazemos para lhe agradecer? Disse o Ti João! Depois de discutirem várias ideias, concordaram em ir contar o que se passou ao Pároco de Santo António, que era o mesmo de Nossa Senhora das Neves, o Padre Jerónimo de Jesus Maria Granja. Dois dias depois, o Ti João albardou a burra e foi a Santo António contar tudo ao Pároco e pedir-lhe ajuda sobre o que deviam fazer. O padre, disse-lhe que deviam fazer uma procissão, mas também deviam oferecer um borrego ou um cabrito a Nossa Senhora das Neves, mas entregava-o a ele ali em Santo António, mas a sua família seria encomendada a Nossa Senhora das Neves para continuar protegida e, daí a quinze dias, no domingo, às três horas da tarde realizava-se lá a procissão e o Ti João entregava-lhe ali o borrego no sábado. Ficou tudo combinado e o Ti João voltou à Defesa de Bobadela. Ainda nesse dia, começaram a planear tudo, ficou assente que os três filhos mais novos iam vestidos de anjinhos e tinham de arranjar roupa a condizer com a cerimónia, porque eles seriam as estrelas da procissão e, logo no dia seguinte, começaram os preparativos, o Ti João foi encarregado de fazer a armação das asinhas dos anjinhos, em vime e em buinho e fez, depois a Ti Margarida forrou-as com pele de borrego e ficaram lindas. 
No dia 12 de Maio de 1862, realizou-se uma grande procissão na Ermida de Nossa Senhora das Neves, o Ti João e família foram agradecer a tão grande dádiva, que foi a salvação da sua vida! 

Nunca mais ninguém soube o que aconteceu ao lobo e, o Ti João não voltou a dar o assobio dobrado até ao fim da sua vida!


Foto net 


Sem comentários:

Enviar um comentário

446 - Terras de Capelins  História de Capelins  A Doação das Vilas de Terena e de Ferreira, por D. Fernando I, a sua filha a Infanta ...